JORDEN MOIR
"QUEM É ESSE CARA?"

Final de tarde em Montreal. Um grupo de pessoas revezava-se numa roda de footbag já há pelo menos 3 horas e a platéia em volta não parava de crescer. Entre as pessoas que formavam a roda, uma chamava a atenção. Sempre que o footbag caia nos pés daquele sujeito de camisa regata e toca, os expectadores sabiam que algo incrível iria acontecer. Ellis Piltz, um dos mais respeitados jogadores e dono da Flipsider, vira-se incrédulo para um amigo ao seu lado e exclama: Quem é esse garoto?? Eu nunca vi esse cara antes!! Era Jorden Moir, uma das grandes revelações do footbag dos últimos anos, se não a maior!

FOOTBAG BRASIL: Como você começou a jogar footbag?

JORDEN MOIR: Comecei a jogar no 1º ano do segundo grau. Eu jogava de leve com os meus amigos durante o intervalo de almoço. Nada de freestyle ainda. Era legal, só que ninguém queria que eu entrasse na roda porque eu era muito ruim, eu mal sabia chutar o footbag direito. Até que um dia eu comprei um footbag de crochê só pra mim e comecei a praticar por conta própria. Depois de um tempo o pessoal já não pegava mais no meu pé.

FOOTBAG BRASIL: Que manobras você conseguiu fazer primeiro?

MOIR: As minhas primeiras manobras eu aprendi jogando com meus amigos no segundo grau. Comecei praticando os chutes básicos e alguns flyers (flying clipper, butterflyer, dragonfly). A gente tinha o costume de fazer competições pra ver quem conseguia fazer o maior número de flyers consecutivos. Era engraçado.

FOOTBAG BRASIL: Porque você começou a tentar manobras mais difíceis? Você percebeu que tinha habilidade pra isso ou só queria ver no que dava?

MOIR: Na verdade eu fiquei conhecendo mesmo o que era o esporte quando eu digitei "hacky sack tricks" num site de busca na Internet. O primeiro site que eu achei foi o footbag.org. Depois de ver alguns videos de manobras e competições de footbag eu me dei conta que aquilo era a coisa mais impressionante que eu já tinha visto na vida. Alguma coisa me dizia que eu tinha que praticar aquilo, ou pelo menos tentar. Depois que eu peguei o domínio dos movimentos básicos, percebi que eu poderia adicionar mais manobras ao meu repertório. Só que pra isso eu sabia que eu tinha que praticar, praticar, praticar...

FOOTBAG BRASIL: Que conselho você daria para alguém que desiste de jogar por achar o esporte muito difícil?

MOIR: É verdade, infelizmente isso é um fato e acontece toda hora. O footbag com certeza não é um esporte fácil de se aprender e pode ser bastante intimidante para algumas pessoas. A única coisa que eu posso falar para alguém que acha o esporte muito difícil é que ela tem razão. Só que ela deve começar com o básico e isso significa fazer os movimentos fundamentais lentamente e ter pleno domínio do footbag antes de aumentar o nível de dificuldade. Aos poucos vá trabalhando seu freestyle. Tente usar as duas pernas, sempre. Vibre quando você conseguir uma nova manobra ou pelo menos reconheça o seu esforço quando chegar bem perto de uma. O sucesso não está no fim de uma caminhada, mas naquilo que você faz para chegar lá. E divirta-se!

FOOTBAG BRASIL: Com que regularidade você joga?

MOIR: O número de vezes que eu jogo por semana varia muito e depende dos meus compromissos, escola, família, etc. Eu procuro praticar no mínimo 4 vezes por semana. Mas geralmente acabo jogando 2 ou 3 vezes somente. Quando tem alguma competição marcada eu procuro jogar com mais regularidade. Cada sessão de treino minha dura em média 2 horas e meia. Quando chegar mais perto do campeonato mundial espero estar treinando de 3 a 5 horas todo dia.

FOOTBAG BRASIL: Como é o seu "dia seguinte"? Você sente dores depois de treinar?

MOIR: Pra minha surpresa eu raramente me quebro depois de uma sessão. As vezes eu tenho que fazer alguns alongamentos de emergência no dia seguinte, mas fora isso, sussegado.

FOOTBAG BRASIL: Você pratica alguma outra atividade? Algum outro esporte?

MOIR: Eu faço malabarismo há uns 2 anos, pratico Taekwon-Do, toco violão e recentemente comecei a aprender io-io.

FOOTBAG BRASIL: Você ficou em 10º no Campeonato Mundial de 2004 em Montreal. Qual a sua avaliação do evento? Achou que o seu desempenho poderia ser melhor?

MOIR: Pra mim o compeonato mundial foi uma ótima oportunidade de adquirir experiência. O fato de ele ter sido realizado em Montreal foi providencial pra mim que sou de Ontário. Fiquei muito contente quando soube que havia sido nomeado para a BAP (Big Add Pose, um grupo seleto de jogadores de nível avançado). Esse era um objetivo que eu tinha já há algum tempo. A 10ª colocação foi mais do que eu imaginava. Foi muito bom poder conhecer e jogar com grandes nomes do footbag mundial. Acho que para o próximo mundial eu vou estar melhor preparado, já que agora tenho mais experiência e habilidade.

FOOTBAG BRASIL: Jogar numa roda de footbag é bem mais motivante. Mas pelo que a gente vê nos seus vídeos, você não se importa de jogar sozinho. Essa afirmação faz sentido?

MOIR: Se eu não gostasse de jogar sozinho, eu nem gostaria de jogar hehe... Na verdade não existe nenhum praticante de freestyle que more perto de mim e por isso tenho que jogar sozinho. Eu procuro fazer um planejamento antes de cada treino, ou seja, estabeleço quais manobras e sequências eu pretendo fazer. Dessa forma eu consigo me manter motivado.

FOOTBAG BRASIL: O que os seus pais acham de tudo isso? Eles te apoiam ou pegam no teu pé?

MOIR: Meus pais me dão suporte em tudo que eu faço, principalmente a minha mãe. Eles me deram a oportunidade de adquirir vários equipamentos essenciais, como tênis e footbags de boa qualidade, além de ajudar financeiramente para que eu pudesse participar de competições e sempre fazem questão de me levar até alguns jogos em grupo distantes daqui. Com certeza eles me encorajam a continuar me aprimorando. Eu não seria nada sem eles.

FOOTBAG BRASIL: Na sua opinião, o footbag é um esporte underground?

MOIR: Sem dúvida! O footbag é totalmente underground. Penso que o estereótipo negativo do esporte e marcas como "Hacky Sack" impedem o footbag de evoluir e obter um maior reconhecimento.

FOOTBAG BRASIL: Você acha que essa situação vai durar pra sempre?

MOIR: Acho que não. Penso que o aparecimento constante de novos talentos ao redor do mundo vai ajudar a promover o verdadeiro espírito do esporte num futuro próximo.

FOOTBAG BRASIL: Na sua opinião, você acha que o esporte pode perder a sua característica cooperativa caso grandes empresas comecem a financiar o esporte visando um retorno meramente comercial?

MOIR: Certamente a entrada de grandes empresas pode influenciar tanto positivamente quanto negativamente os rumos do footbag no mundo. Isso possibilitaria a profissionalização de jogadores de nível avançado e eles poderiam, literalmente, viver de shred. Isso seria um grande avanço. Promoções, campanhas publicitárias e uma maior cobertura da mídia atrairia a atenção de milhares de pessoas e, consequentemente, o surgimento de novos talentos. Entretanto, o espírito underground e a união da comunidade ficariam prejudicadas. Se grandes empresas investissem capital, muito jogadores poderiam levantar fundos para continuar praticando e ajudar a desenvolver e a promover o esporte. E eu me incluo entre estes jogadores.

FOOTBAG BRASIL: Como você vê o futuro do esporte no Brasil?

MOIR: Infelizmente eu sei bem pouco a respeito do que está rolando no Brasil. Adoraria poder conhecer mais. Só espero que vocês continuem a expandir seus clubes e a aprimorar suas habilidades. Gostaria de saber mais sobre o que vocês andam fazendo e como a coisa está se desenvolvendo ai.

FOOTBAG BRASIL: Qual o seu conceito de footbag?

MOIR: Para mim footbag é como um tesouro escondido nas profundezas do mar. Poucas pessoas sabem da sua existência, e aquelas que sabem colocam todo o seu esforço na tentativa de resgatá-lo. Mas as pessoas realmente capazes de fazer isso (freestylers) são aquelas que, ao encontrar o tesouro, distribuem a riqueza entre as outras pessoas (a comunidade). Eles compartilham todas as belezas e maravilhas, coisas que uma pessoa comum nunca sonharia ou daria tamanha importância. Para mim, footbag é um tesouro, e eu não quero imaginar onde eu estaria se eu não o tivesse descoberto.

FOOTBAG BRASIL: Se você pudesse descrever footbag em uma só palavra, qual você escolheria?

MOIR: Hmm…uma palavra. Eu diria "transcedental". Isso significa "mais e além de todo o resto". É isso que footbag significa pra mim. É sem dúvida um dos esportes mais impressionantes de se ver e de se jogar. Fico feliz por tê-lo descoberto a tempo.

FOOTBAG BRASIL: Última pergunta: existe alguma manobra que você é incapaz de fazer?

MOIR: Bem, obviamente existem manobras que estão além das minhas capacidades, mas eu não gosto de pensar desta maneira. Ao invés de dizer "eu não posso acertar isso", eu digo "eu vou acertar isso". É uma filosofia de vida que tem me ajudado bastante no freestyle.

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